Que país é este? IV

Para que se entenda a necessidade de criação das Unidades de Polícia Pacificadoras, tão conhecidas como UPP´S, as quais têm como objetivo central manter a paz nas favelas, reprimindo o odioso tráfico de drogas ilícitas; necessário de faz termos conhecimento do nascedouro das favelas no Estado do Rio de Janeiro.

A formação das favelas no Estado do Rio de Janeiro, esta estritamente ligada à abolição da escravatura ocorrida no final do século XIX, pois sem posse de terras e sem opções de trabalho no campo, muitos escravos libertos se deslocaram ao Rio de Janeiro, então capital federal. O grande contingente de famílias em busca de moradia e emprego provocou a ocupação informal em locais desvalorizados e, de difícil acesso e sem infra-estrutura urbana.

Com a proclamação de república, em 1889, a elite dos administradores do Rio de Janeiro, querendo apagar de seu passado os vestígios de uma cidade colonial, cortiços sem condições sanitárias e povoados por ex-escravos foram demolidos na reforma de Pereira Passos. Sem ter outras opções de moradia, os desabrigados foram obrigados a construir suas próprias casas. Começando então a ocupação dos morros centrais da Providência e de Santo Antônio, em 1893 e, em seguida, os morros do Telégrafo e Mangueira, em 1900, posteriormente os demais conhecidos.

Nos idos dos anos 60, foi construída a Cidade de Deus, hoje com uma população de cerca de 38 mil habitantes; projeto político do governo de Carlos Lacerda que tinha por objetivo a remoção das favelas.

A falta da presença do Estado, em todas as suas áreas, fez com que estes terrenos se tornassem férteis para chegada de traficantes de drogas ilícitas e, estes, por sua vez tornaram estes terrenos férteis também ao acesso de contrabandistas de armas; além, de fazerem às vezes do Estado em toda sua amplitude, do saneamento básico, saúde, estudo e de poder de polícia, mesmo que de forma arbitraria e precária. Com o passar dos anos estes morros passaram receber a denominação de favelas e, constituir um Território aparte do Estado. É de nosso entendimento que o projeto social do governo Brizola favoreceu a fertilidade destes terrenos para o surgimento dessas situações, quando limitou as ações das forças de segurança do Estado nestas áreas.

Diz-se constituir um Território aparte do Estado, uma vez que os traficantes de drogas ilícitas passaram a oferecer aqueles que lhe procurassem consultas médicas, escolas a seus filhos dentre outros atendimentos, logicamente estas pessoas, em contra partida, passavam a efetuar trabalhos aos mesmos, assim como seus filhos; muito embora remunerado, mas obrigatório, sob pena de serem execrados da comunidade, execração esta que vai da expulsão da favela até a sentença de morte. 

Passamos então a assistir o enfrentamento entre as forças de segurança do Estado e as milícias criadas pelos traficantes, assim como a guerra travada entre facções rivais em busca pelo monopólio da venda de drogas ilícitas e, o envolvimento financeiro de agentes do Estado com os ditos donos dos morros. Esta assim implantada a guerrilha urbana nos morros do Estado do Rio de Janeiro.

Resolve então o Estado intervir; num primeiro momento fazendo uso das forças armadas, através do exército brasileiro em operações isoladas e em datas de realização de grandes eventos, posteriormente no governo Garotinho, criando uma linha imaginária entre favelas rivais com o fim de encerramento dos confrontos entre facções, para tal utilizando a Polícia Militar do Estado. Não se fazendo necessário discorrer com profundidade que nada disto deu certo e, pelo contrário, em cada ação mal planejada pelo Estado, só patrocinava a fomentação das ações das facções do tráfico. 

Com a insustentabilidade desta situação, o Estado resolve agir de forma mais eficaz, não mais promovendo operações isoladas através das forças de segurança pública, as quais depois de suas investidas nas favelas, ou territórios independentes com estavam se tornando, se retiravam, voltando as mesmas a seu estado quo e, sim, usando de sua área de inteligência para promoverem, de forma definitiva, a ocupação destas áreas, criando as Unidades de Polícia Pacificadora, formadas por policiais militares e as implantando fisicamente nas áreas das favelas, contando com ajuda de forças federais, como foi o caso da ocupação do complexo de favelas do Alemão.

Em nosso entendimento, o planejamento de pacificação das favelas, não devem permanecer somente a nível policial, pois num primeiro momento estas ações são de total eficácia, porém se num segundo momento se a estas não forem agregadas políticas públicas relativas à implantação de saneamento básico, urbanização, escolas, postos de saúde e de assistências sociais dentre outros, certamente ocorrera à degradação desta operação, e a migração da criminalidade, uma vez que por mais absurdo que pareça, esta ação do Estado provocará o surgimento da classe dos desempregados do narcotráfico, composta dentre outros, por adolescentes e menores que quando não serviam como soldados do narcotráfico permaneciam soltando pipas ou rojões para alertar a chegada de produto ou das forças de segurança, atividades estas remuneradas, às vezes mais do que a do chefe de sua família.

Esta nova classe de desempregados certamente buscará em outras atividades a remuneração perdida, entretanto com a aproximação e convivência que tiveram com a alta criminalidade, a qual exerceu influência na formação da personalidade destes, sem sombra de duvidas será em outras modalidades criminosas que ocorrerá esta busca, necessária para seu sustento e, até, para continuarem ajudar o sustento da família. Índices de furto, roubo, seqüestros e outros, certamente elevarão.

Observando ainda o lado policial desta operação, se os policiais nela envolvidos, não tiverem acompanhamento psicológico, e obedecerem a constantes escalas de rodízio, poderão vir a ser envolvidos financeiramente pelos narcotraficantes remanescentes nas favelas ocupadas e, aqueles que por ventura resistirem a este envolvimento, poderão até vir sofrer atentado a integridade física.

Para concluirmos, se esta operação ficar somente em plataforma política e, assim na dependência da vontade do governante poderá cair no vazio. Uma operação deste porte e envergadura deve ser política de Estado e não de Governo para que prospere a venha alcançar seu objetivo final que é a paz social, de outra forma correremos o risco de ter que exclamar. Que País é Este!!!


– Paulo Tamer

contato@precavsegurança.com.br

(91) 98405-2741

Senador Lemos, 2180

Belém – PA